O santo que quase não tem história
A pergunta com que se encerrou o prólogo não é confortável, e talvez por isso seja tão raramente feita: o que se pode realmente saber sobre o homem por trás da estampa de Santo Expedito? Antes de tentar respondê-la, é preciso entender uma coisa que muda toda a expectativa, e é a seguinte: saber alguma coisa sobre um mártir dos primeiros séculos do cristianismo é, quase sempre, saber muito pouco, e esse pouco não é falha de pesquisa, é a condição normal do assunto.
O leitor de hoje está habituado a um tipo de conhecimento que a Antiguidade raramente oferece. Espera datas exatas, documentos de época, certidões, registros que se possam cruzar e conferir. Para a maioria esmagadora dos mártires dos três primeiros séculos, nada disso existe, e por uma razão simples: a Igreja perseguida não tinha cartórios, não escrevia biografias, e o que ela quis guardar não foi a vida desses homens e mulheres, mas a memória de que morreram fiéis. Dos mártires antigos, na imensa maioria dos casos, chegou-nos pouco mais que três informações: um nome, um lugar e um dia. Vista assim, a escassez de dados sobre Expedito deixa de ser um escândalo isolado e revela-se aquilo que de fato é: a sorte comum de quase todos os santos daquela era. O que torna o seu caso peculiar não é o silêncio das fontes, e sim o contraste entre esse silêncio e o tamanho colossal da devoção que cresceu sobre ele.
A Grande Perseguição, em carne e osso
Antes de examinar o pouco que se sabe de Expedito, vale a pena reconstruir o cenário em que a tradição o situou, porque esse cenário, ao contrário do retrato individual, é sólido, documentado e impressionante. A tradição diz que Expedito morreu em 303, durante a perseguição de Diocleciano. Ora, essa perseguição não é lenda. É um dos episódios mais bem documentados da Antiguidade cristã, e conhecê-la ajuda a entender por que a história do santo, embora não comprovada, soa verossímil.
A perseguição começou em fevereiro de 303, com a destruição da igreja da própria capital imperial, Nicomédia, na atual Turquia. Seguiram-se quatro éditos, cada um mais duro que o anterior. O que os romanos exigiam, é bom notar, não era propriamente que se renegasse a Cristo, e sim que se prestasse o gesto público de culto aos deuses do Estado. Para o cristão, porém, esse gesto era apostasia, e foi nessa recusa, e não numa rebeldia política, que tantos encontraram o martírio. Muitos dos que então morreram eram, de fato, militares, pois o exército fora um dos primeiros alvos do expurgo. A existência de mártires soldados naquele tempo e naquela região oriental mostra que a figura de um oficial cristão executado por fidelidade à fé não tem nada de inverossímil.
Eis, portanto, o cenário: real, datado, sangrento, e perfeitamente compatível com a história que a tradição conta. Guarde-se essa palavra, compatível, porque ela é a chave de todo este capítulo. Uma coisa é a perseguição ter de fato existido. Outra, muito diferente, é provar que este homem, com este nome e esta patente, morreu nela do modo que se conta.
O capítulo continua, reconstruindo o registro mais antigo do nome nos martirológios e a arte da hagiografia crítica. A obra completa, com nove capítulos e seis apêndices, está na Amazon.
Continuar a leitura na Amazon


